quarta-feira, outubro 29, 2008

SOBRE POESIA

A jornalista Alexandra Maia me entrevistou, há uns três anos, pro Portal Literal. A matéria toda está aqui, além de alguns poemas:
http://portalliteral.terra.com.br/artigos/as-vozes-do-poeta


Aqui, trechos da entrevista:


Referências

"Eu teria que te oferecer uma antologia para responder a isso. São tantos os poetas que foram importantes para mim, de várias nacionalidades: Walt Whitman, Rimbaud, Mayakovski, Dante, cummings, Bashô, William Carlos Williams, Shakespeare, Fernando Pessoa, Emily Dickinson, Laura Riding, Drummond, Murilo Mendes ou contemporâneos como John Ashbery, Ginsberg, Kerouac, Leminski, Burroughs. Quando gosto muito de um poeta, pelo 'que' e pelo 'como' ele/a diz algo, sinto compulsão em traduzí-lo/a."

Escrever

"Neurologistas como Damasio têm provado que a emoção e a consciência são simultâneas, que não há separação entre corpo e mente. Eu diria que, muitas vezes, meus poemas tentam captar o que ele chama de 'sensação do que acontece'. Isso não quer dizer que eu seja devoto do espontaneísmo. Não: a escrita poética exige constante reescritura. O poeta, diante de seu poema, como se pilotasse uma ilha de edição, passa a desempenhar as funções de editor, reescritor, tradutor, revisor, músico, iluminador etc."

Poesia própria

"Em Polivox e mesmo em Solarium minha poesia aponta para um gosto pela experimentação, pela polifonia, pela diversidade de estilos, tons, pegadas, poéticas. Gosto do verso de Whitman em que ele diz 'Eu me contradigo, sou vasto . . . contenho multidões'. Pessoa e seus heteronômios, Pound e suas personas, Rimbaud e seu 'Eutro', Whitman e seu conceito de 'merge' ou fusão de opostos, todos esses conceitos são condizentes com minha maneira de encarar a atividade poética."

Publicar

"Demorei dez anos para conseguir editar Solarium. Passei por umas dez editoras diferentes, e senti na carne o que é ser um jovem poeta em busca de editora. Quando publiquei Solarium, já tinha publicado as traducões de Sylvia Plath e Rimbaud pela Iluminuras. Mesmo assim tive que pagar a edição do meu bolso."

Crítica literária

"A poesia está cada vez mais jogada pra escanteio pelo jornalismo cultural, por exemplo, que prefere valorizar prosadore(a)s que usam piercing, tenham nomes em inglês, que sejam abertamente narcisistas, falsamente escatológicos ou politicamente incorretos. De poesia, só se fala quando é para se falar dos clássicos. Ninguém a discute, fora da universidade, com seriedade. A criação de revistas literárias parece ter esta função fundamental de preencher esta lacuna, servir de espaço alternativo de reflexão, criação e divulgação de novos autores, fora do eixo Rio-São Paulo."

Significado de poesia

"Poesia é a arte da linguagem verbal. Uma forma de organizar o caos ou caotizar a ordem. Um passaporte para outros estados de percepção e para um maior entendimento do mundo."

terça-feira, outubro 28, 2008

COYOTE 18 DE TOCAIA

Em novembro tem COYOTE nova na praça.


Dossiê com Márcia Denser, traduções de Michel Houllebecq, Paul Éluard, haikus de Jack Kerouac, prosa de Alberto Lins Caldas, poemas de Joca Reiners Terron, fotos de Iatã Cannabrava e muito mais.

NOVA ZUNÁI NA REDE

A nova revista Zunái já está na rede, com muita coisa boa, como sempre. Entre as traduções, estão poemas de Andrei Codrescu traduzidos por mim, aqui:

http://www.revistazunai.com/traducoes/andrei_codrescu.htm

A PALAVRA BRANCA DE LAURA RIDING



POETA: PALAVRA MENTIROSA




Você chegou comigo, eu cheguei com você, à estação que devia ser inverno, e não é: não retornamos.

Não retornamos: não voltamos ao começo: nem nos movemos. Eu levei você, você me levou, ao próximo e próximo espaço de tempo e ao último — e é o último. Fique contra mim, então, e encare e olhe bem através de mim, então. Não é muro algum para ser escalado e deixado para trás como as velhas estações, como os poetas que eram as estações.

Fique contra mim, então, e encare e olhe bem através de mim, então. Não sou nenhum poeta como você que tem a cada espaço de tempo saltado as altas palavras rumo a próxima profundidade e estação, sempre a próxima estação, sempre a última, e a próxima. Eu sou um muro de verdade: só lhe resta olhar bem através de mim.

É um muro falso, um poeta: é uma palavra mentirosa. É um muro que fecha e não se fecha.

Isto não é nenhum muro que fecha e não se fecha. É um muro pra se olhar dentro, não é nenhuma outra alta temporada. Além dele não existem altos e baixos de mais viagens, sem meio do caminho. Fique contra mim, então, e encare e olhe bem através de mim, então. Como muro de poeta fico, embora não seja um poeta como um muro sendo erguido entre o próximo e próximo vão e tornados falsos e intransponíveis. Enfim, sou um muro de verdade: só lhe resta olhar bem através de mim.


[ ... ]



Trecho inicial de poema de Laura Riding, em Mindscapes (Iluminuras, 2004)

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

sábado, outubro 25, 2008




outono agora

o que os olhos vêem

já é memória


quarta-feira, outubro 22, 2008

VALSA BRASILEIRA

Pintura de Edward Hopper

Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu

Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer
E pela porta de trás
Da casa vazia
Eu ingressaria
E te veria
Confusa por me ver
Chegando assim
Mil dias antes de te conhecer


Edu Lobo & Chico Buarque

AO VIVO




O inverno lança estranha antologia
Trevos de trevas e liláses de solidão
Colisão de um satélite de metáforas
Relatos de narcisos terroristas
Provocam alta nas cotações de nuvens de lixo espacial
Racha na cópula de abelhas de absinto
Iminência de guerra de beijos partidos
E o ano-novo passado no Nilo.
O olho do furacão sofre, sobre o Caribe
E conecta memórias-links de estrelas decadentes
Seres isolados em entropia
Soletram e tocam suas reses
Enquanto rimas serial killers invadem os pregões
E palavras apodrecem nos jornais,
No canto das bocas, sem fôlego,
No bilhete amassado e esquecido
Como tudo mais.






(Rodrigo Garcia Lopes, Nômada, 2004)

domingo, outubro 19, 2008

SHEEP IN FOG, uma leitura (Sobre um poema de Sylvia Plath)




Fila de hálito branco

descendo a colina

-- Mergulhada na neblina, bota branca

pisando mansa & macia dentro da alma das árvores.

Mundos obscuros, mudos -

"the train leaves a line of breath"

Um fio de hálito fica no caminho -

Não é um trem, dessa vez,

não é esta a tradução

e sim ovelhas simples

descendo

(em silêncio)

pela colina.

Uma dezena de pequenas almas ambulantes,

peregrinas

(vistas por alguém que não diz nada).

Uma fita fina e fria, de neblina

retida na retina

e nítida ainda -

Que se solta das mínimas narinas das ovelhas

e se dissolvem na gelada

Manhã.










Keswick, Distrito dos Lagos, Inglaterra, 1984


Rodrigo Garcia Lopes (Solarium, 1994)


terça-feira, outubro 14, 2008


Paul Cézanne



"A Nova Física nos diz que um observador não pode observar sem alterar o que ele vê. O que é observado e quem observa estão interrelacionados num sentido real e fundamental [...] Há um crescente corpus de evidência de que a distinção entre "aqui dentro" e o "lá fora" é uma ilusão [...] O acesso ao mundo físico se dá através da experiência. O denominador comum de toda experiência é que o "eu'" provoca a experiência. Resumindo, o que nós percebemos não é a realidade externa, mas nossa interação com ela".

GARY ZUKAV
The Dancers Wuli Masters: An Overview of the New Physics (New York: William Morrow and Co., 1979)

A ARTE DE PERDER, de Elizabeth Bishop


A arte de perder não é nenhum mistério;
Tantas coisas contêm em si o acidente
De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
A chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:
Lugares, nomes, a escala subseqüente
Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
Lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império
Que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser mistério
por muito que pareça (Escreve!) muito sério.


ELIZABETH BISHOP
TRADUZIDA POR
PAULO HENRIQUES BRITTO

segunda-feira, outubro 13, 2008


"Quando o homem quis imitar o caminhar ele inventou a roda, que não se parece em nada com uma perna. Desse modo, ele fazia surrealismo sem saber".

Guillaume Apollinaire

domingo, outubro 12, 2008

CARTA-OCEANO, de Apollinaire

























A POESIA VISUAL DE “CARTA-OCEANO” E DOS CALIGRAMAS


A realização mais ousada do livro
Caligramas, de Guillaume Apollinaire, em termos de composição, é “Lettre-Ocean” (publicado na Soirées de Paris em 15 de juho 1914). O poema foi concebido duas páginas abertas de um livro, como Mallarmé faz em “Um Lance de Dados”. Este poema inclusive se destaca dos demais caligramas, pois aqui as formas e objetos são mais abstratos e esquemáticos do que em poemas como os conhecidos “Chove” ou “Fonte”, que imitam de modo inequívoco o objeto a que se referem. Aqui os recursos visuais tendem à abstração e à ambiguidade: os dois blocos ondulados que separam o espaço do poema podem ser interpretados como o Oceano Atlântico (que o separa do irmão, no México) ou a ondas herzianas. Já os dois verdadeiros mandalas que ocupam a parte inferior e o centro da segunda página podem ser lidos como uma referência à roda gigante instalada no começo do século próximo à torre Eiffel, aos círculos da pintura orfista de Delaunay, a um molho de chaves (que é aludido em uma das linhas que compõe seus raios), a um disco fonográfico com suas ranhuras, ao sol e, finalmente, a torre Eiffel e sua antena de TSF emitindo transmissões de linguagem.


Como indica o título, o poema é apresentado como uma carta (carta-oceano sendo uma transmissão que se fazia de navios em alto mar para o continente, sendo usada, por exemplo, durante o naufrágio do Titanic, em 1912). Se há um tema aqui, pode-se dizer que são as novas formas de comunicação e seu impacto na percepção e na vida das pessoas. Neste poema, Apollinaire ambiciona reproduzir, ao modo simultaneísta, as barreiras vencidas pelo advento dos novos meios de comunicação (a telegrafia sem fio, o rádio, o fonógrafo, o telefone, o cinema). O gatilho do poema é a troca de mensagens e correspondências entre ele em Paris e seu irmão Albert, que estava no México. O primeiro passo é decidir por onde começar a leitura, pois se ele se apresenta simutaneamente ao nosso olhar. Primeiro, somos apresentados a “ilhas de linguagem” que desorientam nossos padrões de leitura. Lugares geográficos são indicados apenas de passagem, como alusões a eventos históricos (o terremoto em Nice, OS MAYAS, ou a revolução Mexicana).
Os blocos de ondas que dividem simetricamente a peça figuram tanto o mar que o separa de seu irmão Albert como também as ondas hertzianas que os une no ato comunicativo. Segue-se uma colagem de fragmentos de dois cartões postais. Na parte de baixo da primeira página, um forma circular nos chama a atenção: difícil decidir se ele se remete a um mandala, à forma de um molho de chaves (“Já vi milhares de chaves”, lemos num fragmento). Talvez isso tudo ao mesmo tempo, mas, principalmente quando consideramos o segundo mandala, na página direita, percebemos que os raios representam a “informação” que escapam da antena da TSF (sigla para “telegrafia sem fio” e que aparece, em fonte bem maior e em bold, entre os dois círculos, talvez também figurando a torre).
Constatamos, então, que os dois raios do círculo são formados de fragmentos de conversa (“na Tunísia você funda um jornal”) fragmentos de anúncios de jornal (“[pro]prietário de 5 ou 6 im [óveis]….”), comandos de um policial (“todo mundo circulando”), relatos de experiências sexuais (“Jaques foi um tesão”), cantadas, pequenas confissões ilicitas (“viajei de graça com minha garota”), vaias populares (“BÚÚÚ aos camponeses”), confissões etílicas ( “acordei às 2 da manhã e já bebi uma garrafa de mouton”), refrões de vendedores de sorvete (“À la créme a...") ou de um menu de restaurante, anúncios de embarque de trem (“passageiros embarcando para Chateau”), mensagens urgentes (“Páre motorista”, “o cabograma constitua em duas palavras EM segurança/A SALVO”), fragmentos de slogans políticos ("Vida longa ao Rei”) ou religiosos ( “Abaixo os padres”, “EVIVAOPAPA”), ruídos de ônibus, sirenes, interjeições, e até mesmo os ruídos que “os sapatos novos do poeta” fazem pelas ruas de Paris (descritos em letras maiúsculas e sugeridos pela repetição dos passos através da onomatopéia “cri”). Este último som também pode sugerir os ruídos da agulha saltando nos sulcos do “disco”, uma novidade na época.
Apollinaire se inspira no fato da poderosa antena ter sido instalada no alto da torre Eiffel há pouco tempo, sendo usado por militares e também como padrão de medição do tempo e para emitir mensagens militares, sinais, de rádio, fazendo dela o “centro” ou “umbigo” do mundo (outro caligrama possível). A torre aqui é transformada numa verdadeira Torre de Babel modernista. O que temos é um oceano de linguagem mas é impossível determinar sua origem. Os dois círculos também podem estar figurando a torre e a roda gigante instalada em suas proximidades na época, e que se tornou tema de ínumeros fotógrafos e pintores.
Como se não bastasse, “Carta-Oceano” ainda nos guarda uma última surpresa, pois exatamente no centro da mandala temos a informação de nossa localização verdadeira: “a 300 metros de altura” (a altura da torre Eiffel). Só então percebemos, para nossa surpresa, que a tomada proposta da torre Eiffel e seus raios não é lateral, mas
de cima para baixo, como uma visao aérea: a torre Eiffel vista de cima, a emitir e receber mensagens do mundo e do ambiente urbano ao redor.
Embora ele mesmo reconhecesse que um poema, ao contrário da pintura, nao é eminentemente espacial (como a pintura ou o cinema, por exemplo) e sim temporal (lemos de fonema a fonema, de palavra em palavra) Apollinaire nos desafia, em poemas como este, a repensar a relação entre palavra e imagem, aparência e real, tempo e espaço. “Carta-Oceano” pode ser vista como uma síntese de alguns procedimentos de sua poesia, sendo uma mistura de caligrama,
poema-pintura e poema-conversação. O poema, enfim, é dotado de uma rica textura textual e ainda hoje desafia nossos hábitos de leitura.




KAFKA ATACA


O escritor e editor Paulo Sandrini, de Curitiba, retoma o interessante trabalho editorial da sua Kafka Edições. www.kafkaedicoes.com.br Vejam aí alguns lançamentos.

DIA 16 DE OUTUBRO / QUINTA-FEIRA / NO BETO BATATA, ALTO DA XV (CURITIBA) / A PARTIR DAS 20H

OS 5 LIVROS DA COLEÇÃO:

ACASOS PENSADOS, LUCI COLLIN

ARQUIVO MORTO, MARCELO BENVENUTTI

INVERNO DENTRO DOS TÍMPANOS, LUIZ F. LEPREVOST

JORNAL DA GUERRA CONTRA OS TAEDOS, MANOEL C. KARAM

OSCULUM OBSCENUM, PAULO SANDRINI

sexta-feira, outubro 10, 2008

POEMA PASSAGEIRO


Ricardo Silveira teve a sacada, e a bagaça começa amanhã na "paulicéia desvairada" : clips de poesia, poemas visuais, um poeta por dia:

11/10 Chacal
12/10 Rodrigo Garcia Lopes
13/10 Ricardo Domeneck
14/10 Marcelo Montenegro
15/10 Ricardo Silveira
16/10 Angelica Freitas
17/10 Bruna Beber
18/10 Marcelo Sahea
19/10 Ana Rusche
20/10 Leo Gonçalvez

Ainda não sei em que linhas. No corredor R. Augusta / Av. Europa tem 70 ônibus com a TV da Bus Mídia. Os mesmos poemas estarão na linha Verde do Metrô e nas livrarias Cultura, Nobel e Siciliano.

quinta-feira, outubro 09, 2008

DEPOIS DO MASSACRE



Falava da gravitação das flores:
do peso das hastes tensionando
este abismo de pó.
Ansiava uma espessura, uma cidade
invisível, no lugar de uma respiração.
Ser pássaro onde não há nenhum.
Ser um onde não há ninguém.






Rodrigo Garcia Lopes (em "Nômada, 2004)

quarta-feira, outubro 08, 2008

PASTORAL



PASTORAL


E de repente simplesmente apareceu
como um milagre não-humano o cervo
saltando no meio do campus certo
de que seria invisível

Agitado e gracioso um espírito
entre sorrisos enquanto a loira fala
no celular e um outro esperto
tira uma fotografia

Enfim acha a saída antes
que chegue a polícia
num pequeno bosque e para dentro
de um outro tempo



terça-feira, outubro 07, 2008

Últimas linhas de "Zone"

[...]
E você bebe este álcool como sua vida ardente
Sua vida bebida como uma aguardente


Você rumo a Auteuil quer chegar em casa a pé
Dormir entre seus fetiches da Oceania e da Guiné
Estes são os Cristos de outras formas e outras crenças

São os Cristos inferiores de confusas esperanças

Adeus Adeus


Sol degolado






Soleil cou coupé (sol decapitado)
também se refere a uma espécie de galo que tem o pescoço de vermelho sangue.


Sol (galo) degolado




De "Zone", de Guillaume Apollinaire.
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

CHANTRE / CANTOR




Et l'unique cordeau des trompettes marines

E a corda sozinha dos trompetes marinhos





Guillaume Apollinaire
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

“Cantor”, de Alcools (1913), foi incluído no último momento. Composto de uma única linha, que prefigura o caligrama (já que a "linha" do poema figura, icônica e ironicamente, a única corda do estranho instrumento chamado trompete marinho ou tromba marina) . A tradução perde o trocadilho entre cordeau (a corda do instrumento) e cord d’eau (cordão ou fio de água, aludindo ao mar e ao nome do instrumento). Na tradução, essa ambiguidade se passa num outro nível: a corda sozinha acorda sozinha. Outra opção:


E a corda solitária das trombas marinhas


Aqui o trocadilho entre cordeau e cor d'eau é recuperado, de certa forma, com "a corda solitária", que também pode ser entendida, sonoramente, como "acorda solitária", e que também alude, internamente, à palavra ária (composição musical para um único instrumento ou cantor, quase sinônimo para canção). A corda única que faz companhia ao "cantor"d o título. A imagem abaixo, do século 17, talvez tenha sido a inspiração para esta peça.






domingo, outubro 05, 2008

Bukowski sobre poesia


Hilário: Charles Bukowski "cagando e andando" para grandes vultos literários e para os poetas em geral (rêrêrê). E literalmente, quando compara ao poema terminado e a "emoção poética" ao som e visão da descarga da privada. Imperdível!

http://www.youtube.com/watch?v=r1e5Jeh2Fk0&feature=related

sábado, outubro 04, 2008

O MAR (Jorge Luis Borges)

Antes que o sonho (ou o terror) tecesse
Mitologias e cosmogonias,
Antes que o tempo se cunhasse em dias,
O mar, sempre mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é aquele violento
E antigo ser que rói os pilares
Da terra e é um e muitos mares
E abismo e resplendor e acaso e vento?
Quem o olha o vê pela primeira vez.
Sempre. Com o assombro que as coisas
Elementares deixam, as charmosas
tardes, a lua, ou fogo de uma fogueira.
Quem é o mar, quem sou? Isso saberei
No dia seguinte da minha agonia.



Jorge Luis Borges
Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

TUDO TEM SENTIDO (videopoema)


Execução: Ricardo Silveira



MOSTRA SESC DE ARTES
POEMA PASSAGEIRO

SESC - em todas as unidades/SP
09/10 a 17/10.
Horário de circulação dos ônibus municipais.
literatura | artemídia | intervenção
Inserção de dez poemas inéditos de dez diferentes poetas na programação cultural das TVs dos ônibus da capital paulista. A intervenção questiona a distribuição de poesia para círculos cada vez mais restritos. Curadoria de Ricardo Silveira. Autores: Ana Rüsche, Angelica Freitas, Bruna Beber, Chacal, Leo Gonçalves, Marcelo Montenegro, Marcelo Sahea, Ricardo Domeneck, Ricardo Silveira e Rodrigo Garcia Lopes.
Apoio: Bus Mídia Televisão Coletiva.

quinta-feira, outubro 02, 2008

A PONTE MIRABEAU (de Guillaume Apollinaire)


A PONTE MIRABEAU



Sob a ponte Mirabeau flui o Sena
E nossos amores
Por isso sempre ela me lembra
O prazer só vem depois da pena

Vem a noite e dobra a hora
Dias se vão e eu aqui agora

Fiquemos de mãos dadas face a face
Enquanto sob a ponte
De nossos braços passem
Os olhares eternos dessa onda lassa

Vem a noite e dobra a hora
Dias se vão e eu aqui agora

O amor flui feito essa corrente
O amor flui
Como a vida tão lenta
E a esperança violenta

Vem a noite e dobra a hora
Dias se vão e eu aqui agora

Passam dias passam semanas
Nem o tempo passa
Nem amores regressam à cena
Sob a ponte Mirabeau flui o Sena

Vem a noite e dobra a hora
Dias se vão e eu aqui agora




Guillaume Apollinaire
Tradução (in progress): Rodrigo Garcia Lopes

Ouça o próprio Apollinaire recitando o poema em gravação raríssima de 1913, aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=eCpg6SMzXC4&feature=related