sábado, abril 21, 2018



Editora lança no país 1ª antologia de poeta sueco que venceu o Nobel

Volume destaca fase de haikus de Tomas Tranströmer, que favorece imagens precisas e metáforas
                                 
RODRIGO GARCIA LOPES

       Após um longo inverno, finalmente o poeta sueco Tomas Tranströmer (1931-2015) tem pela primeira vez um livro publicado no Brasil.
       Não será desta vez que o leitor brasileiro terá acesso à poesia completa do Prêmio Nobel de Literatura de 2011, densa, mas relativamente modesta em termos de quantidade.
      Traduzido para mais de 60 línguas, é um poeta de poetas, tendo influenciado a obra de outros ganhadores do Nobel como Seamus Heaney, Joseph Brodsky e Derek Walcott.
      Não é uma antologia ampla, como anuncia a editora, que promete ainda publicar toda a sua obra. Com exceção de "Prelúdio", que abre o livro de estreia (em 1954), a seleção passa ao largo dos seis livros de poesia exuberantes que Tranströmer escreveu nos anos 1950, 60 e parte dos 70.
      Depois de uma prosa curta inédita, vem "Mares do Leste" (1974). É seu épico pessoal. Longo poema narrativo, é tecido por fragmentos do diário de bordo do avô piloto de barco, memórias familiares, paisagens do "maravilhoso labirinto de ilhas e água" do Mar Báltico, cuja presença é marcante em sua poesia.
     "Quando tinha neblina densa: velocidade reduzida, vista quase cega. Do invisível surgia a ponta, um único passo e tudo era proximidade. / Estrondo de um sinal a cada dois minutos. Os olhos liam direto o invisível. / (Ele tinha o labirinto na cabeça?)"
      A seleção dá preferência ao último Tranströmer, aos dois volumes que publicou depois de um AVC em 1990, que paralisou o lado direito do corpo e afetou severamente sua capacidade de falar, escrever e ler.
      É quando o sueco volta a escrever haikus. Para quem gosta do gênero, um prato cheio: há 64 deles no livro. Um desafio para a tradutora foi respeitar a divisão silábica (três versos de 5-7-5), o que sacrificou um pouco a clareza e entendimento de algumas peças. Mas há bons achados: "O fogo, azul / levanta do asfalto / como mendigo". Ou ainda: "Fugiu – foi preso / e tinha bolsos cheios / de cogumelos".

    Sua poesia segue os preceitos do imagismo, favorecendo metáforas e símiles surpreendentes. "Como uma borboleta rajada fica invisível no chão / o demônio se mistura com o jornal aberto". O poeta, que trabalhou anos como psicólogo, reelabora de modo muito particular o surrealismo.

      Muitos poemas borram as fronteiras entre consciente e inconsciente, ser humano e natureza, sonho e realidade. Tema recorrente em sua obra e que aparece já nos versos iniciais de "Prelúdio": "Acordar é saltar de sonhos com paraquedas. / Livre do turbilhão opressivo, o viajante / naufraga na zona verde da manhã".
      Para Tranströmer, poemas são "exercícios de meditação ativa", como declarou certa vez. "Eles querem nos acordar, não nos pôr para dormir." Introspectiva e enigmática, sua poesia atinge este objetivo, numa espécie particular de realismo mágico.

RODRIGO GARCIA LOPES  ESCRITOR, É AUTOR DE ‘O TROVADOR’, ALÉM DE TRADUTOR E COMPOSITOR

MARES DO LESTE E OUTROS POEMAS
Preço R$ 49 (232 págs.)
Autor Tomas Tranströmer
Editora Âyiné
Tradução Marcia Sá Cavalcante Schuback

segunda-feira, março 26, 2018

Resenha de "Epigramas", de Marcial (Ateliê Editorial) na Folha de S. Paulo

CRÍTICA  LIVROS

Tradução de 'Epigramas' recupera humor do romano Marcial

Obra é antologia com 219 dos 1.561 epigramas que nos chegaram
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GUILHERME GONTIJO FLORES


EPIGRAMAS
·        Preço R$ 82 (220 págs.)
·        Autor Marco Valério Marcial
·        Editora Ateliê Editorial
·        Tradução Rodrigo Garcia Lopes



     A poesia de Marco Valério Marcial (c. 38-104 d.C.), uma das figuras mais importantes da literatura romana, vem recebendo bastante atenção. Quatro tradutores acadêmicos têm realizado um trabalho híbrido de estudo acurado e tradução poética anotada.
     João Angelo Oliva Neto, Alexandre Agnolon, Robson Tadeu Cesila e Fábio Paifer Cairolli são os latinistas que desenvolveram a maior parte desses trabalhos nos últimos dez anos.
     Apesar desses trabalhos excepcionais, a vivacidade da poesia de Marcial demanda um duplo trabalho tradutório com abordagens complementares: por um lado, o estudo que explique como funcionam suas piadas, alusões literárias, construções poéticas etc.; por outro, a recriação poética mais livre desses efeitos.
    Uma obra que chegou há pouco às livrarias promete ser uma reinvenção de Marcial na poesia brasileira. Trata-se de "Epigramas", com tradução do poeta e romancista Rodrigo Garcia Lopes, numa antologia com 219 dos 1.561 epigramas que nos chegaram.
     O novo trabalho, mesmo que inventivo, dá sequência ao projeto tradutório de Décio Pignatari, em "31 Poetas, 214 Poemas".
     Pignatari já havia traduzido 58 epigramas de Marcial com registro mais popular, retomada de rimas e outros jogos formais que fazem o humor e a concisão dos epigramas ganharem vida em roupagem mais próxima da poesia marginal e do poema-minuto de Oswald de Andrade.
     O resultado agora são poemas luminosos, como: "Você é um velho, é o que Taís repete. / Ninguém é velho pra receber boquete." (Livro 4, 50).
     Ou: "Sempre diz, Póstumo, vou viver amanhã. / Me diga: esse amanhã, quando ele chega? / Por onde ele anda, Póstumo?, está muito longe? / Em Parta ou na Armênia ele se esconde? / O amanhã já é mais velho que Nestor e Príamo. / Quanto custa um amanhã?, me conte. / Vai viver amanhã, Póstumo? Hoje já era. / Sábio daquele que viveu-o ontem." (Livro 5, 58)
Além da tradução, o volume tem notas e posfácio do próprio Garcia Lopes, que auxiliam o leitor interessado.
    Há algumas imprecisões técnicas, até na adaptação dos nomes romanos para o português; mas são falhas menores e perdoáveis diante da importância da tradução.
     Belíssima é também a edição. A capa é solta em duas partes, de modo que cada um dos 12 livros de Marcial pode ser lido como volume separado, que, ao fim, é novamente reunido ao todo e preso com duas fitas elásticas.
     Assim, mesmo na antologia, o leitor pode ter a experiência de dividir temporalmente a produção do poeta em pequenos fascículos.

GUILHERME GONTIJO FLORES é professor de língua e literatura latinas na Universidade Federal do Paraná e tradutor de “Fragmentos Completos: Safo” (ed. 34).


quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Rodrigo Garcia Lopes e Eduardo Batistella no SESC São José do Rio Preto (SP)



O show da noite fica a cargo do poeta, cantor, violonista e compositor de Londrina (PR) Rodrigo Garcia Lopes. Ele se apresenta acompanhado do baterista Eduardo Batistella, com o show “Canções do Estúdio Realidade”. O repertório é baseado em seus dois álbuns, “Polivox” e “Canções do Estúdio Realidade”. Em um show vigoroso e inspirado, que afirma sua singularidade musical e potência sonoro-poética, Garcia Lopes traz canções de sua autoria compostas nos últimos anos (como Quaderna, Alba, Cerejas, Fugaz, Álibis, Vertigem, Rito e New York) e algumas inéditas (Trilha Sonora, Tango e Noturno).
Rodrigo Garcia Lopes
Poeta, compositor, violonista e tradutor. Com 16 livros publicados, em 2001 foi incluído no best-seller Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século 20. Produziu e gravou dois CDs autorais, base do presente show.
Eduardo Batistella
Baterista profissional desde os 16 anos, o londrinense realizou trabalhos inovadores ao lado de Paulinho Barnabé e sua lendária Patife Band, Arrigo Barnabé e o citarista Gegê.
Local
Comedoria.
https://www.sescsp.org.br/programacao/146703_RODRIGO+GARCIA+LOPES

sábado, fevereiro 10, 2018

"Epigramas", de Marcial, no Estadão


Tuítes da Roma antiga, epigramas de Marcial ganham edição no País
Textos do escritor e habitante do Império Romano no século 1.º d.C., considerado o mestre do gênero, foram traduzidos por Rodrigo Garcia Lopes

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo
     

      O epigrama não foi criado por Marcos Valério Marcial (escritor e habitante do Império Romano no século 1.º d.C.), mas ele é considerado o mestre do gênero especialmente na língua latina. Uma nova edição, da Ateliê, com tradução direta do escritor Rodrigo Garcia Lopes, chega às lojas com boa parte da produção mais célebre do autor.
      A edição bilíngue, com cadernos independentes e projeto gráfico de Gustavo Piqueira, tem 12 seções e 219 poemas dos anos de 86 a 103 d.C., quando Marcial já era amplamente conhecido no Império Romano.
      A tradução transporta para o português contemporâneo toda a obscenidade, a incisiva agudeza e, em algumas ocasiões, as ideias que hoje parecem empoeiradas dos escritos que fizeram de seu autor uma estrela. O grande destaque, porém, é a forma – como o autor consegue comprimir em poucas linhas pensamentos mais amplos.
       “Solta um barro, Basso, num vaso de ouro, / mas bebe num vidro: cagar lhe é mais caro”, diz um deles. “Uns bons, uns mais ou menos, outros um lixo: / Assim se faz um livro de poemas, Avito”, diz outro. Mais à frente: “Enterrou no campo, Fíleros, suas sete mulheres. / Isso é o que chamo de terra produtiva”.
      “Se poesia é ‘a forma mais condensada de expressão verbal’, como escreveu Pound, os epigramas greco-romanos são, ao lado dos haicais japoneses, os campeões na matéria”, escreve o tradutor no detalhado posfácio da edição. “Quase 2000 anos depois, em tempos de Twitter, WhatsApp e comunicação instantânea (e muitas vezes irrelevante), Marcial tem muito a nos dizer. Arguto, ele continua sendo o mestre da agudeza ou wit: a capacidade de unir palavras e ideias com inteligência, humor e perícia.”
       É no posfácio que Garcia Lopes ressalta a necessidade de abordar os textos (mesmo a figura de Marcial, descrito como bajulador, pedante e conservador) com distância dos padrões éticos contemporâneos.
      Ele cita a estudiosa Kathleen M. Coleman: “A ideologia que permeia os Epigramas é tão estranha à nossa maneira moderna de pensar que temos de ser particularmente cuidadosos sobre como importar os nossos próprios padrões éticos em uma interpretação do que Marcial está fazendo”.
“Seria algo como acusarmos o poeta, atualmente, de ser ‘politicamente incorreto’”, escreve.
       Mas o tradutor ressalta que são poucas as informações biográficas sobre Marcial. “Sem dúvida ele deve ter sido uma figura e tanto, mas não podemos afirmar se ele era assim (contraditório, complexo, cruel, impiedoso) ou o quanto não era parte de sua ‘persona poética’ (ele mesmo transformado em personagem)”, diz, por e-mail.
     “O que tem interessado os estudiosos de Marcial nas últimas décadas é que, ao mesmo tempo em que é um poeta de seu tempo (arguto observador de Roma), pelas características de sua escrita ele antecipa questões que ainda fazem parte do nosso tempo.”
      Por exemplo, Marcial inicia um epigrama assim: “Por que a fama é negada aos vivos / e raros leitores amam os contemporâneos? / Isso, Régulo, é bem típico da inveja, / Desprezar os modernos, preferir os antigos”.
     Outro vai assim: “Pobre hoje, Emiliano, amanhã também. / A riqueza só é dada a quem já tem”. Assuntos de hoje, pois.
     “Vários aspectos de sua obra se inserem no contexto atual”, diz Garcia Lopes, “de intolerância e censura, liberdade de expressão, conservadorismo, redes sociais, etc. A aproximação entre epigrama e o twitter é um entre vários aspectos”.
      E como ele acredita que a obra será recebida no Brasil de 2018? “Acho que nesses tempos de corrupção e escárnio político, golpes descarados (esses sim obscenos), descalabros jurídicos, manipulação de informação, ‘fake news’, redes sociais, censura, cultura de celebridades, etc. a poesia de Marcial ainda continua atual, permanece urgente e necessária. Será que ele seria censurado ou tomaria processo se escrevesse hoje, no Brasil?”


EPIGRAMAS
Autor: Marco Valério Marcial
Tradutor: Rodrigo Garcia Lopes
Editora: Ateliê (220 págs., R$ 82)

quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Epigramas, de Marcial, na Zero Hora

BOCA MALDITA
Tradução verte para o português a sátira sacana do poeta romano Marcial
Carlos André MoreiraEpigramas de autor romano do primeiro século ganham versão assinada pelo poeta e tradutor paranaense Rodrigo Garcia Lopes
CARLOS ANDRÉ MOREIRA
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Jacqueline Sasano / DivulgaçãoTradutor Rodrigo Garcia Lopes fez versão para epigramas de Marco Valério MarcialJacqueline Sasano / Divulgação

Ao contrário do que podem achar algumas sensibilidades conservadoras dispostas a fechar exposições "obscenas" por aí, a relação entre arte e sacanagem é tão antiga quanto frutífera. Um bom exemplo disso pode ser encontrado na recente edição em português dos Epigramas, composições breves do poeta Marco Valério Marcial (40 – 104), que viveu na Roma do primeiro século da Era Cristã e fez de seus versos navalhas certeiras dirigidas ao que considerava os vícios e hipocrisias do mundo em que vivia.
Epigramas foram uma forma de poesia breve muito difundida na antiguidade. Seu espírito direto e por vezes cortante servia tanto para breves elegias ou epitáfios quanto para ataques a desafetos e ditos humorísticos que poderiam muito bem ser enquadrados, hoje em dia, como "piadas bagaceiras" – Marcial e seu precursor Catulo (87?a.C. –57?a.C.) foram mestres tanto num caso como no outro.

Nascido em Bílbilis, no território em que hoje se localiza a região espanhola de Zaragoza, Marcial mudou-se, pouco depois de seus 20 anos, para Roma, o centro do Império, onde viveu por décadas, como era comum em sua época, apadrinhado por nobres ricos ou por figuras ligadas ao poder imperial.
Seus poemas curtos, antecipadores de muitos “tuítes” de hoje em dia, atacavam o que considerava defeitos de seus contemporâneos, como o oportunismo, a desfaçatez dos jogos de interesses e até a cara de pau de outros poetas que roubavam a autoria de seus versos e passavam a lê-los nos saraus públicos como se de autoria própria. Ele também compôs tiradas maliciosas ou abertamente obscenas sobre os costumes sexuais de seu tempo (a seleção no quadro ao lado reúne alguns poucos mordazes mas ainda publicáveis).
– Marcial é impiedoso em seus versos. Em muitos instantes ele poderia ser considerado politicamente incorreto, mas é impossível aplicar à obra dele um contexto do século 21 que não existia em seu tempo. Os únicos que ele poupava eram seus patronos, porque aí ele adulava e puxava o saco mesmo – explica o tradutor paranaense Rodrigo Garcia Lopes.
Epigramas reúne 219 poemas de Marcial publicados ao longo de toda sua vida. A versão em português vem acompanhada do original latino, e a edição tem o formato de um arquivo de capa dura em que 12 cadernos podem ser destacados e separados, e cada um deles corresponde a um dos 12 livros que o poeta de fato publicou em vida.
– Marcial costumava chamar cada livro que publicava de "libellus", ou seja, "livrinho", uma maneira ao mesmo tempo irônica, carinhosa e autodepreciativa de se referir ao próprio trabalho. Foi a partir dessa ideia que Gustavo Piqueira (designer responsável pelo projeto gráfico) teve a ideia de publicar a obra em forma de livros menores. Claro que também isso foi uma licença poética, já que, na época de Marcial, os livros eram em rolos – diz Lopes.
Jornalista, escritor, poeta e tradutor, Rodrigo Garcia Lopes tem uma história de três décadas com Marcial. Descobriu a poesia do romano enquanto fazia mestrado sobre William Burroughs no Arizona, em 1990, e foi traduzindo aos poucos os epigramas que chamavam a sua atenção.
– Em 2014, eu já tinha uns cem epigramas traduzidos e me dei conta de que precisava me dedicar àquilo. Mergulhei no conjunto e traduzi mais da metade do livro em uma imersão de dois anos. Selecionei um conjunto que apresentasse uma versão por inteiro de seu trabalho, porque ele podia, como poeta, ser terno, ser comovente, ser elegíaco e em outros momentos ser impiedoso. Mesmo proibido durante a Idade Média, ele é retomado por outros mais adiante como Bocage ou Quevedo. 

POEMAS DE MARCIAL:
Carlos André Moreira
XLVII
Diaulo, o coveiro, até ontem era doutor:
o que fazia antes, agora faz melhor.
LXXXIII
Seu totó lambe sua boca, sua língua. Como gosta!
Não me admiro, Maneia. Cães adoram bosta.
CX
Você diz, Veloz, que meus poemas são longos.
Você não escreve nada: isto é concisão.
XLIX
Você bebe o melhor vinho, nos oferece o pior:
prefiro cheirar seu copo que beber do meu.
LXXXIII
Me persegue, fujo; foge, te persigo. Percebe?
Quero que me recuse, não que me deseje.
XLVIII
Quando a turma da toga grita “Bravo!”, Pompônio,
Não é pro seu discurso, e sim pro seu jantar.
LI
Dá jantares e nunca me convida, Luperco.
Descobri um jeito de te ferir: ficar puto,
e ai de você se ousar me convidar.
“O que você vai fazer?” Eu? Ir.

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Lançamento: "Epigramas", de Marcial (Ateliê Editorial)



LANÇAMENTO: "Epigramas", de Marcial. 
Epigramas: “tweets”da Roma Antiga em edição de colecionador

     Escrever em poucos caracteres para passar uma mensagem assertiva tornou-se popular com a criação do Twitter, há pouco mais de dez anos. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos, por poetas como Marco Valério Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso).
Apesar de sua importância estética, são raras as edições de Marcial no Brasil.
     Para preencher essa lacuna e trazer ao conhecimento do público esta arte poética, a Ateliê Editorial lança, em uma edição de colecionador, Epigramas, escritos por Marco Valério Marcial, e traduzidos diretamente do latim por Rodrigo Garcia Lopes. 
     A edição bilíngue é composta por 12 pequenos cadernos, feitos artesanalmente a partir do projeto gráfico do artista plástico Gustavo Piqueira, que reúnem 219 poemas escritos entre 86 e 103 d.C. O livro traz notas explicativas e um posfácio que inclui dados biográficos do autor e contextualiza a poesia obra? de Marcial na Roma Antiga, além de conter informações sobre as questões estéticas de sua poesia.
     Talvez o tema principal dos Epigramas seja a cidade em que vivia o poeta. “Se há alguma musa na poesia de Marcial, ela se chama Roma: é da cidade que ele tira sua matéria prima. Como um dublê de poeta-humorista-colunista-cronista social — munido de uma câmera portátil e verbal, o epigrama — ele nos convida a espiar os espaços públicos e privados de Roma no século 1 em todas as suas contradições”, afirma Garcia Lopes. 
A seleção traz epigramas cômicos, pornográficos e injuriosos, que fizeram a fama de Marcial. Mas o tradutor também incluiu poemas de amor e amizade, sobre a boemia, reflexões sobre escravidão, sobre viver o presente, além de epitáfios tocantes e epigramas metapoéticos, em que o poeta reflete sobre sua própria condição de autor. 
     “Além de ser um grande poeta, Marcial é extremamente moderno ao prenunciar aspectos de nossa sociedade do espetáculo, de comunicação instantâneas (como os 140 caracteres do Twitter), da indústria da fofoca, do consumo (onde tudo está à venda), da superficialidade, exibicionismo, da cultura da imagem, redes sociais, culto às celebridades, fama instantânea e reality shows”, conclui o tradutor. 

Serviço

ISBN 978-85-7480-752-2
Tamanho: 14 x 21 cm
Número de páginas: 224
Preço: R$ 82,00


Site:www.atelie.com.br
***CONTATOS PARA IMPRENSA:
RDA Comunicação Corporativa
Renata de Albuquerque
renata@rda.jor.br
Tel: (11) 2296-3931
PROJETO GRÁFICO: CASA REX / GUSTAVO PIQUEIRA



segunda-feira, janeiro 08, 2018

Resenha de 'O Imperador do Sorvete", de Wallace Stevens, na Folha

EDIÇÃO REVISTA E AMPLIADA SALIENTA A POÉTICA DE WALLACE STEVENS


O IMPERADOR DO SORVETE E OUTROS POEMAS
ÓTIMO
AUTOR Wallace Stevens
SELEÇÃO, TRADUÇÃO E NOTAS   Paulo Henriques Britto
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 49,90   (336 págs.)

RODRIGO GARCIA LOPES
Especial para a Folha

      O presidente da companhia de seguros comentou, quando seu vice estava no hospital, ao saber de seu bom humor com as enfermeiras: “A menos que me dissessem que ele tinha sofrido um problema cardíaco, eu jamais saberia que ele tinha coração”. Poucos colegas sabiam que, nas horas livres, aquele executivo workaholic, reservado, meio antipático, se transformava num mago das palavras, um exuberante artífice do verso. Era Wallace Stevens (1875-1955), um poeta capaz de causar, em muitas peças, aquela emoção e assombro que só sentimos diante das grandes obras de arte.
      Sua poesia volta a circular entre nós com O Imperador do Sorvete e Outros Poemas, em competente tradução de Paulo Henriques Britto. Trata-se de uma edição revista e ampliada de Poemas (1987). Há décadas indisponível, o livro foi pioneiro ao introduzir no Brasil a obra de um dos grandes nomes da poesia modernista americana. Britto acrescentou 16 novos poemas aos 20 da primeira edição. Sua seleção ficou mais robusta e representativa das várias fases de sua escrita. Dos poemas imagistas e exuberantes de sua obra-prima “Harmonium” (que marca sua estreia tardia em livro, aos 44 anos) temos a inclusão de joias como “Peter Quince ao Cravo”, “Tatuagem” e, sobretudo, “O Homem de Neve”. Seus poemas longos e meditativos estão representados em peças como “A Ideia de Ordem em Key West”, “As Auroras Boreais do Outono” e “Apontamentos para Uma Ficção Suprema”. Além de trazer notas, a seleção contempla alguns poemas secos e crípticos do último período (como “Meramente Ser” ou “Ao Sair da Sala”) e três não reunidos em livro pelo autor. Em muitos casos as revisões foram pontuais, fazendo os poemas ganharem em beleza e precisão (“Caso do Jarro”). Já o misterioso poema-título recebeu uma revisão geral: dos 16 versos, 10 foram retraduzidos. Britto, como brilhante poeta e tradutor que é, se sai muito bem da tarefa de transpoetizar para o português o virtuosismo verbal, imagístico e rítmico deste mestre da logopeia, “a dança da inteligência entre as palavras”.
      Uma chave para o leitor entrar no universo de Stevens é ter em mente que um de seus temas favoritos é a relação entre a realidade e a imaginação. Ambas se expandem e se fundem quando articuladas pela “suprema ficção” da poesia e sua força ordenadora. É o que ocorre em muitos poemas, como “Tatuagem”: “A luz lembra uma aranha. / Caminha sobre a água. / Caminha pelas margens da neve. / Penetra sob as tuas pálpebras / E espalha ali suas teias – / Duas teias. // As teias de teus olhos / Estão atadas / À carne e aos ossos teus / Como a um caibro ou capim. // Há filamentos de teus olhos / Na superfície da água / E nas margens da neve”.
     Embora seja considerada hermética e solipsista (não haveria nada além do mundo que o “eu” fabrica), a obra de Stevens é um convite à aventura e às descobertas que a investigação poética do mundo pode proporcionar. Como ele nos provoca, no magistral “O Homem do Violão Azul”: “Jogue fora as luzes, as definições. / Diga o que você vê na escuridão”.


Rodrigo Garcia Lopes é poeta, romancista e tradutor, autor de O Trovador (Record, 2014), Experiências Extraordinárias (Kan, 2015) e Epigramas, de Marcial (Ateliê, 2017).

terça-feira, setembro 05, 2017

John Ashbery na "Ilustrada" de hoje




Poeta polifônico, John Ashbery se manteve aberto a inovações

Bebeto Matthews/Associated Press
O poeta americano John Ashbery, morto no domingo aos 90
O poeta americano John Ashbery, morto no domingo aos 90
       John Ashbery, que morreu aos 90 anos em sua casa de Hudson, Nova York, no domingo (3), foi um dos poetas americanos mais importantes do século 20. Foi também editor e crítico de arte e de poesia, tradutor e professor.
Conseguiu unanimidade mesmo entre críticos antagônicos, como Marjorie Perloff e Harold Bloom –este chegou a afirmar que Ashbery representava, para a segunda metade do século 20, o que Wallace Stevens e W.B. Yeats representaram para a primeira.
    Dono de uma poesia polifônica, exuberante e exploratória, interessada em investigar o que ele chamava de "o presente mágico", escreveu nas mais diversas formas, do poema em prosa à sestina.
     Mesmo considerado difícil e hermético, criou uma legião de leitores. Foi um mestre da logopeia, "a dança da inteligência entre as palavras".
    Seu "Autorretrato num Espelho Convexo" é uma obra-prima. Verdadeiro "tour de force" de 552 versos, espécie de meditação sobre o ato criativo, o poema foi escrito a partir do quadro homônimo do pintor italiano Parmigianino (1503-1540) e batiza o livro de 1975 que levou os principais prêmios de poesia dos EUA, entre eles o Pulitzer.
     Ashbery costuma ser rotulado como integrante da "Escola de Nova York", grupo de poetas que, nos anos 1950 e 60, tinha afinidades como o expressionismo abstrato, a poesia francesa, o surrealismo e a música de vanguarda.
    "The Tennis Court Oath" (1962) teve grande influência entre os chamados "poetas da linguagem", um dos últimos movimentos de poesia experimental dos EUA.
    Pode-se dizer que, como na obra de Proust e na filosofia de Bergson, a poética de Ashbery se propõe a ser uma investigação dos dados imediatos da sua consciência.
São marcantes, em sua prosódia, o uso da fala americana, fluidez contrastando com descontinuidade, constantes mudanças de tom e pronomes pessoais, uso da ironia e do pastiche.
    Seus poemas são permanentes desafios ao leitor. Cabem neles desde citações eruditas e referências da alta cultura até fragmentos de conversas, alusões à cultura pop, ao cinema e aos desenhos animados –veja-se, por exemplo, "Patolino em Hollywood". Até o fim da vida esteve aberto a inovações.
Em 1992, entrevistei-o a pedido de uma revista do Arizona –uma versão do texto está em meu livro "Vozes & Visões" (Iluminuras, 1996).
   Era uma tarde de muita neve no Chelsea, onde ele morava em Manhattan –desde 1979, ele e seu companheiro, David Kermani, dividiam seu tempo entre o apartamento e a casa onde morreu. A mesa à qual escrevia era impecável. As paredes, cheias de pinturas –uma de suas paixões, além da música e do cinema.
    Os editores da revista me avisaram que ele era difícil de entrevistar, lacônico. O que encontrei foi um senhor de 65 anos simpático, falante e bem-humorado. Por duas horas, conversamos sobre sua obra, sobre a poesia e a cultura americanas, arte, música e processo criativo.
     "Quero minha poesia o mais próximo de meus pensamentos imediatos", disse.
Quando lhe perguntei se gostava de jazz, acabou dando uma das chaves para sua poesia: "Nunca me interessei muito, e você deve achar estranho eu dizer isso, porque meus poemas são bastante improvisacionais, eles vão se construindo e se modificando enquanto prosseguem, como ocorre no jazz".
    Ashbery ainda não teve uma coletânea de sua poesia traduzida no Brasil. É recomendável a leitura de "John Ashbery - Módulos para o Vento" (Edusp, 1999), no qual Viviana Bosi disseca e traduz seu poema mais famoso.


    Autor de quase 30 livros de poemas, nos últimos anos ele vinha num ritmo frenético de publicações. Também lançou, em 2012, uma tradução das "Illuminations", de Arthur Rimbaud, um de seus poetas favoritos. Não levou o Nobel, mas merecia.