quarta-feira, fevereiro 21, 2018

Rodrigo Garcia Lopes e Eduardo Batistella no SESC São José do Rio Preto (SP)



O show da noite fica a cargo do poeta, cantor, violonista e compositor de Londrina (PR) Rodrigo Garcia Lopes. Ele se apresenta acompanhado do baterista Eduardo Batistella, com o show “Canções do Estúdio Realidade”. O repertório é baseado em seus dois álbuns, “Polivox” e “Canções do Estúdio Realidade”. Em um show vigoroso e inspirado, que afirma sua singularidade musical e potência sonoro-poética, Garcia Lopes traz canções de sua autoria compostas nos últimos anos (como Quaderna, Alba, Cerejas, Fugaz, Álibis, Vertigem, Rito e New York) e algumas inéditas (Trilha Sonora, Tango e Noturno).
Rodrigo Garcia Lopes
Poeta, compositor, violonista e tradutor. Com 16 livros publicados, em 2001 foi incluído no best-seller Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século 20. Produziu e gravou dois CDs autorais, base do presente show.
Eduardo Batistella
Baterista profissional desde os 16 anos, o londrinense realizou trabalhos inovadores ao lado de Paulinho Barnabé e sua lendária Patife Band, Arrigo Barnabé e o citarista Gegê.
Local
Comedoria.
https://www.sescsp.org.br/programacao/146703_RODRIGO+GARCIA+LOPES

sábado, fevereiro 10, 2018

"Epigramas", de Marcial, no Estadão


Tuítes da Roma antiga, epigramas de Marcial ganham edição no País
Textos do escritor e habitante do Império Romano no século 1.º d.C., considerado o mestre do gênero, foram traduzidos por Rodrigo Garcia Lopes

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo
     

      O epigrama não foi criado por Marcos Valério Marcial (escritor e habitante do Império Romano no século 1.º d.C.), mas ele é considerado o mestre do gênero especialmente na língua latina. Uma nova edição, da Ateliê, com tradução direta do escritor Rodrigo Garcia Lopes, chega às lojas com boa parte da produção mais célebre do autor.
      A edição bilíngue, com cadernos independentes e projeto gráfico de Gustavo Piqueira, tem 12 seções e 219 poemas dos anos de 86 a 103 d.C., quando Marcial já era amplamente conhecido no Império Romano.
      A tradução transporta para o português contemporâneo toda a obscenidade, a incisiva agudeza e, em algumas ocasiões, as ideias que hoje parecem empoeiradas dos escritos que fizeram de seu autor uma estrela. O grande destaque, porém, é a forma – como o autor consegue comprimir em poucas linhas pensamentos mais amplos.
       “Solta um barro, Basso, num vaso de ouro, / mas bebe num vidro: cagar lhe é mais caro”, diz um deles. “Uns bons, uns mais ou menos, outros um lixo: / Assim se faz um livro de poemas, Avito”, diz outro. Mais à frente: “Enterrou no campo, Fíleros, suas sete mulheres. / Isso é o que chamo de terra produtiva”.
      “Se poesia é ‘a forma mais condensada de expressão verbal’, como escreveu Pound, os epigramas greco-romanos são, ao lado dos haicais japoneses, os campeões na matéria”, escreve o tradutor no detalhado posfácio da edição. “Quase 2000 anos depois, em tempos de Twitter, WhatsApp e comunicação instantânea (e muitas vezes irrelevante), Marcial tem muito a nos dizer. Arguto, ele continua sendo o mestre da agudeza ou wit: a capacidade de unir palavras e ideias com inteligência, humor e perícia.”
       É no posfácio que Garcia Lopes ressalta a necessidade de abordar os textos (mesmo a figura de Marcial, descrito como bajulador, pedante e conservador) com distância dos padrões éticos contemporâneos.
      Ele cita a estudiosa Kathleen M. Coleman: “A ideologia que permeia os Epigramas é tão estranha à nossa maneira moderna de pensar que temos de ser particularmente cuidadosos sobre como importar os nossos próprios padrões éticos em uma interpretação do que Marcial está fazendo”.
“Seria algo como acusarmos o poeta, atualmente, de ser ‘politicamente incorreto’”, escreve.
       Mas o tradutor ressalta que são poucas as informações biográficas sobre Marcial. “Sem dúvida ele deve ter sido uma figura e tanto, mas não podemos afirmar se ele era assim (contraditório, complexo, cruel, impiedoso) ou o quanto não era parte de sua ‘persona poética’ (ele mesmo transformado em personagem)”, diz, por e-mail.
     “O que tem interessado os estudiosos de Marcial nas últimas décadas é que, ao mesmo tempo em que é um poeta de seu tempo (arguto observador de Roma), pelas características de sua escrita ele antecipa questões que ainda fazem parte do nosso tempo.”
      Por exemplo, Marcial inicia um epigrama assim: “Por que a fama é negada aos vivos / e raros leitores amam os contemporâneos? / Isso, Régulo, é bem típico da inveja, / Desprezar os modernos, preferir os antigos”.
     Outro vai assim: “Pobre hoje, Emiliano, amanhã também. / A riqueza só é dada a quem já tem”. Assuntos de hoje, pois.
     “Vários aspectos de sua obra se inserem no contexto atual”, diz Garcia Lopes, “de intolerância e censura, liberdade de expressão, conservadorismo, redes sociais, etc. A aproximação entre epigrama e o twitter é um entre vários aspectos”.
      E como ele acredita que a obra será recebida no Brasil de 2018? “Acho que nesses tempos de corrupção e escárnio político, golpes descarados (esses sim obscenos), descalabros jurídicos, manipulação de informação, ‘fake news’, redes sociais, censura, cultura de celebridades, etc. a poesia de Marcial ainda continua atual, permanece urgente e necessária. Será que ele seria censurado ou tomaria processo se escrevesse hoje, no Brasil?”


EPIGRAMAS
Autor: Marco Valério Marcial
Tradutor: Rodrigo Garcia Lopes
Editora: Ateliê (220 págs., R$ 82)

quarta-feira, fevereiro 07, 2018

Epigramas, de Marcial, na Zero Hora

BOCA MALDITA
Tradução verte para o português a sátira sacana do poeta romano Marcial
Carlos André MoreiraEpigramas de autor romano do primeiro século ganham versão assinada pelo poeta e tradutor paranaense Rodrigo Garcia Lopes
CARLOS ANDRÉ MOREIRA
·         
Jacqueline Sasano / DivulgaçãoTradutor Rodrigo Garcia Lopes fez versão para epigramas de Marco Valério MarcialJacqueline Sasano / Divulgação

Ao contrário do que podem achar algumas sensibilidades conservadoras dispostas a fechar exposições "obscenas" por aí, a relação entre arte e sacanagem é tão antiga quanto frutífera. Um bom exemplo disso pode ser encontrado na recente edição em português dos Epigramas, composições breves do poeta Marco Valério Marcial (40 – 104), que viveu na Roma do primeiro século da Era Cristã e fez de seus versos navalhas certeiras dirigidas ao que considerava os vícios e hipocrisias do mundo em que vivia.
Epigramas foram uma forma de poesia breve muito difundida na antiguidade. Seu espírito direto e por vezes cortante servia tanto para breves elegias ou epitáfios quanto para ataques a desafetos e ditos humorísticos que poderiam muito bem ser enquadrados, hoje em dia, como "piadas bagaceiras" – Marcial e seu precursor Catulo (87?a.C. –57?a.C.) foram mestres tanto num caso como no outro.

Nascido em Bílbilis, no território em que hoje se localiza a região espanhola de Zaragoza, Marcial mudou-se, pouco depois de seus 20 anos, para Roma, o centro do Império, onde viveu por décadas, como era comum em sua época, apadrinhado por nobres ricos ou por figuras ligadas ao poder imperial.
Seus poemas curtos, antecipadores de muitos “tuítes” de hoje em dia, atacavam o que considerava defeitos de seus contemporâneos, como o oportunismo, a desfaçatez dos jogos de interesses e até a cara de pau de outros poetas que roubavam a autoria de seus versos e passavam a lê-los nos saraus públicos como se de autoria própria. Ele também compôs tiradas maliciosas ou abertamente obscenas sobre os costumes sexuais de seu tempo (a seleção no quadro ao lado reúne alguns poucos mordazes mas ainda publicáveis).
– Marcial é impiedoso em seus versos. Em muitos instantes ele poderia ser considerado politicamente incorreto, mas é impossível aplicar à obra dele um contexto do século 21 que não existia em seu tempo. Os únicos que ele poupava eram seus patronos, porque aí ele adulava e puxava o saco mesmo – explica o tradutor paranaense Rodrigo Garcia Lopes.
Epigramas reúne 219 poemas de Marcial publicados ao longo de toda sua vida. A versão em português vem acompanhada do original latino, e a edição tem o formato de um arquivo de capa dura em que 12 cadernos podem ser destacados e separados, e cada um deles corresponde a um dos 12 livros que o poeta de fato publicou em vida.
– Marcial costumava chamar cada livro que publicava de "libellus", ou seja, "livrinho", uma maneira ao mesmo tempo irônica, carinhosa e autodepreciativa de se referir ao próprio trabalho. Foi a partir dessa ideia que Gustavo Piqueira (designer responsável pelo projeto gráfico) teve a ideia de publicar a obra em forma de livros menores. Claro que também isso foi uma licença poética, já que, na época de Marcial, os livros eram em rolos – diz Lopes.
Jornalista, escritor, poeta e tradutor, Rodrigo Garcia Lopes tem uma história de três décadas com Marcial. Descobriu a poesia do romano enquanto fazia mestrado sobre William Burroughs no Arizona, em 1990, e foi traduzindo aos poucos os epigramas que chamavam a sua atenção.
– Em 2014, eu já tinha uns cem epigramas traduzidos e me dei conta de que precisava me dedicar àquilo. Mergulhei no conjunto e traduzi mais da metade do livro em uma imersão de dois anos. Selecionei um conjunto que apresentasse uma versão por inteiro de seu trabalho, porque ele podia, como poeta, ser terno, ser comovente, ser elegíaco e em outros momentos ser impiedoso. Mesmo proibido durante a Idade Média, ele é retomado por outros mais adiante como Bocage ou Quevedo. 

POEMAS DE MARCIAL:
Carlos André Moreira
XLVII
Diaulo, o coveiro, até ontem era doutor:
o que fazia antes, agora faz melhor.
LXXXIII
Seu totó lambe sua boca, sua língua. Como gosta!
Não me admiro, Maneia. Cães adoram bosta.
CX
Você diz, Veloz, que meus poemas são longos.
Você não escreve nada: isto é concisão.
XLIX
Você bebe o melhor vinho, nos oferece o pior:
prefiro cheirar seu copo que beber do meu.
LXXXIII
Me persegue, fujo; foge, te persigo. Percebe?
Quero que me recuse, não que me deseje.
XLVIII
Quando a turma da toga grita “Bravo!”, Pompônio,
Não é pro seu discurso, e sim pro seu jantar.
LI
Dá jantares e nunca me convida, Luperco.
Descobri um jeito de te ferir: ficar puto,
e ai de você se ousar me convidar.
“O que você vai fazer?” Eu? Ir.

segunda-feira, janeiro 15, 2018

Lançamento: "Epigramas", de Marcial (Ateliê Editorial)



LANÇAMENTO: "Epigramas", de Marcial. 
Epigramas: “tweets”da Roma Antiga em edição de colecionador

     Escrever em poucos caracteres para passar uma mensagem assertiva tornou-se popular com a criação do Twitter, há pouco mais de dez anos. Mas, esse recurso já era usado na Roma Antiga, há quase dois mil anos, por poetas como Marco Valério Marcial, considerado o pai do epigrama (forma poética breve, marcada pelo estilo satírico e engenhoso).
Apesar de sua importância estética, são raras as edições de Marcial no Brasil.
     Para preencher essa lacuna e trazer ao conhecimento do público esta arte poética, a Ateliê Editorial lança, em uma edição de colecionador, Epigramas, escritos por Marco Valério Marcial, e traduzidos diretamente do latim por Rodrigo Garcia Lopes. 
     A edição bilíngue é composta por 12 pequenos cadernos, feitos artesanalmente a partir do projeto gráfico do artista plástico Gustavo Piqueira, que reúnem 219 poemas escritos entre 86 e 103 d.C. O livro traz notas explicativas e um posfácio que inclui dados biográficos do autor e contextualiza a poesia obra? de Marcial na Roma Antiga, além de conter informações sobre as questões estéticas de sua poesia.
     Talvez o tema principal dos Epigramas seja a cidade em que vivia o poeta. “Se há alguma musa na poesia de Marcial, ela se chama Roma: é da cidade que ele tira sua matéria prima. Como um dublê de poeta-humorista-colunista-cronista social — munido de uma câmera portátil e verbal, o epigrama — ele nos convida a espiar os espaços públicos e privados de Roma no século 1 em todas as suas contradições”, afirma Garcia Lopes. 
A seleção traz epigramas cômicos, pornográficos e injuriosos, que fizeram a fama de Marcial. Mas o tradutor também incluiu poemas de amor e amizade, sobre a boemia, reflexões sobre escravidão, sobre viver o presente, além de epitáfios tocantes e epigramas metapoéticos, em que o poeta reflete sobre sua própria condição de autor. 
     “Além de ser um grande poeta, Marcial é extremamente moderno ao prenunciar aspectos de nossa sociedade do espetáculo, de comunicação instantâneas (como os 140 caracteres do Twitter), da indústria da fofoca, do consumo (onde tudo está à venda), da superficialidade, exibicionismo, da cultura da imagem, redes sociais, culto às celebridades, fama instantânea e reality shows”, conclui o tradutor. 

Serviço

ISBN 978-85-7480-752-2
Tamanho: 14 x 21 cm
Número de páginas: 224
Preço: R$ 82,00


Site:www.atelie.com.br
***CONTATOS PARA IMPRENSA:
RDA Comunicação Corporativa
Renata de Albuquerque
renata@rda.jor.br
Tel: (11) 2296-3931
PROJETO GRÁFICO: CASA REX / GUSTAVO PIQUEIRA



segunda-feira, janeiro 08, 2018

Resenha de 'O Imperador do Sorvete", de Wallace Stevens, na Folha

EDIÇÃO REVISTA E AMPLIADA SALIENTA A POÉTICA DE WALLACE STEVENS


O IMPERADOR DO SORVETE E OUTROS POEMAS
ÓTIMO
AUTOR Wallace Stevens
SELEÇÃO, TRADUÇÃO E NOTAS   Paulo Henriques Britto
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 49,90   (336 págs.)

RODRIGO GARCIA LOPES
Especial para a Folha

      O presidente da companhia de seguros comentou, quando seu vice estava no hospital, ao saber de seu bom humor com as enfermeiras: “A menos que me dissessem que ele tinha sofrido um problema cardíaco, eu jamais saberia que ele tinha coração”. Poucos colegas sabiam que, nas horas livres, aquele executivo workaholic, reservado, meio antipático, se transformava num mago das palavras, um exuberante artífice do verso. Era Wallace Stevens (1875-1955), um poeta capaz de causar, em muitas peças, aquela emoção e assombro que só sentimos diante das grandes obras de arte.
      Sua poesia volta a circular entre nós com O Imperador do Sorvete e Outros Poemas, em competente tradução de Paulo Henriques Britto. Trata-se de uma edição revista e ampliada de Poemas (1987). Há décadas indisponível, o livro foi pioneiro ao introduzir no Brasil a obra de um dos grandes nomes da poesia modernista americana. Britto acrescentou 16 novos poemas aos 20 da primeira edição. Sua seleção ficou mais robusta e representativa das várias fases de sua escrita. Dos poemas imagistas e exuberantes de sua obra-prima “Harmonium” (que marca sua estreia tardia em livro, aos 44 anos) temos a inclusão de joias como “Peter Quince ao Cravo”, “Tatuagem” e, sobretudo, “O Homem de Neve”. Seus poemas longos e meditativos estão representados em peças como “A Ideia de Ordem em Key West”, “As Auroras Boreais do Outono” e “Apontamentos para Uma Ficção Suprema”. Além de trazer notas, a seleção contempla alguns poemas secos e crípticos do último período (como “Meramente Ser” ou “Ao Sair da Sala”) e três não reunidos em livro pelo autor. Em muitos casos as revisões foram pontuais, fazendo os poemas ganharem em beleza e precisão (“Caso do Jarro”). Já o misterioso poema-título recebeu uma revisão geral: dos 16 versos, 10 foram retraduzidos. Britto, como brilhante poeta e tradutor que é, se sai muito bem da tarefa de transpoetizar para o português o virtuosismo verbal, imagístico e rítmico deste mestre da logopeia, “a dança da inteligência entre as palavras”.
      Uma chave para o leitor entrar no universo de Stevens é ter em mente que um de seus temas favoritos é a relação entre a realidade e a imaginação. Ambas se expandem e se fundem quando articuladas pela “suprema ficção” da poesia e sua força ordenadora. É o que ocorre em muitos poemas, como “Tatuagem”: “A luz lembra uma aranha. / Caminha sobre a água. / Caminha pelas margens da neve. / Penetra sob as tuas pálpebras / E espalha ali suas teias – / Duas teias. // As teias de teus olhos / Estão atadas / À carne e aos ossos teus / Como a um caibro ou capim. // Há filamentos de teus olhos / Na superfície da água / E nas margens da neve”.
     Embora seja considerada hermética e solipsista (não haveria nada além do mundo que o “eu” fabrica), a obra de Stevens é um convite à aventura e às descobertas que a investigação poética do mundo pode proporcionar. Como ele nos provoca, no magistral “O Homem do Violão Azul”: “Jogue fora as luzes, as definições. / Diga o que você vê na escuridão”.


Rodrigo Garcia Lopes é poeta, romancista e tradutor, autor de O Trovador (Record, 2014), Experiências Extraordinárias (Kan, 2015) e Epigramas, de Marcial (Ateliê, 2017).

terça-feira, setembro 05, 2017

John Ashbery na "Ilustrada" de hoje




Poeta polifônico, John Ashbery se manteve aberto a inovações

Bebeto Matthews/Associated Press
O poeta americano John Ashbery, morto no domingo aos 90
O poeta americano John Ashbery, morto no domingo aos 90
       John Ashbery, que morreu aos 90 anos em sua casa de Hudson, Nova York, no domingo (3), foi um dos poetas americanos mais importantes do século 20. Foi também editor e crítico de arte e de poesia, tradutor e professor.
Conseguiu unanimidade mesmo entre críticos antagônicos, como Marjorie Perloff e Harold Bloom –este chegou a afirmar que Ashbery representava, para a segunda metade do século 20, o que Wallace Stevens e W.B. Yeats representaram para a primeira.
    Dono de uma poesia polifônica, exuberante e exploratória, interessada em investigar o que ele chamava de "o presente mágico", escreveu nas mais diversas formas, do poema em prosa à sestina.
     Mesmo considerado difícil e hermético, criou uma legião de leitores. Foi um mestre da logopeia, "a dança da inteligência entre as palavras".
    Seu "Autorretrato num Espelho Convexo" é uma obra-prima. Verdadeiro "tour de force" de 552 versos, espécie de meditação sobre o ato criativo, o poema foi escrito a partir do quadro homônimo do pintor italiano Parmigianino (1503-1540) e batiza o livro de 1975 que levou os principais prêmios de poesia dos EUA, entre eles o Pulitzer.
     Ashbery costuma ser rotulado como integrante da "Escola de Nova York", grupo de poetas que, nos anos 1950 e 60, tinha afinidades como o expressionismo abstrato, a poesia francesa, o surrealismo e a música de vanguarda.
    "The Tennis Court Oath" (1962) teve grande influência entre os chamados "poetas da linguagem", um dos últimos movimentos de poesia experimental dos EUA.
    Pode-se dizer que, como na obra de Proust e na filosofia de Bergson, a poética de Ashbery se propõe a ser uma investigação dos dados imediatos da sua consciência.
São marcantes, em sua prosódia, o uso da fala americana, fluidez contrastando com descontinuidade, constantes mudanças de tom e pronomes pessoais, uso da ironia e do pastiche.
    Seus poemas são permanentes desafios ao leitor. Cabem neles desde citações eruditas e referências da alta cultura até fragmentos de conversas, alusões à cultura pop, ao cinema e aos desenhos animados –veja-se, por exemplo, "Patolino em Hollywood". Até o fim da vida esteve aberto a inovações.
Em 1992, entrevistei-o a pedido de uma revista do Arizona –uma versão do texto está em meu livro "Vozes & Visões" (Iluminuras, 1996).
   Era uma tarde de muita neve no Chelsea, onde ele morava em Manhattan –desde 1979, ele e seu companheiro, David Kermani, dividiam seu tempo entre o apartamento e a casa onde morreu. A mesa à qual escrevia era impecável. As paredes, cheias de pinturas –uma de suas paixões, além da música e do cinema.
    Os editores da revista me avisaram que ele era difícil de entrevistar, lacônico. O que encontrei foi um senhor de 65 anos simpático, falante e bem-humorado. Por duas horas, conversamos sobre sua obra, sobre a poesia e a cultura americanas, arte, música e processo criativo.
     "Quero minha poesia o mais próximo de meus pensamentos imediatos", disse.
Quando lhe perguntei se gostava de jazz, acabou dando uma das chaves para sua poesia: "Nunca me interessei muito, e você deve achar estranho eu dizer isso, porque meus poemas são bastante improvisacionais, eles vão se construindo e se modificando enquanto prosseguem, como ocorre no jazz".
    Ashbery ainda não teve uma coletânea de sua poesia traduzida no Brasil. É recomendável a leitura de "John Ashbery - Módulos para o Vento" (Edusp, 1999), no qual Viviana Bosi disseca e traduz seu poema mais famoso.


    Autor de quase 30 livros de poemas, nos últimos anos ele vinha num ritmo frenético de publicações. Também lançou, em 2012, uma tradução das "Illuminations", de Arthur Rimbaud, um de seus poetas favoritos. Não levou o Nobel, mas merecia. 


terça-feira, agosto 22, 2017

FORA TEMER


Tema Ferro
Ofertar Me
Mero Frate
Te Reforma 
Taro Refem
Toma Ferre
Fare Morte
After More
Retro Fame
Faro Treme
E Tem Forra
Temor Fera
Fera Morte
Terra Fome
Meter Faro
Frete Amor
Remar Feto
Mate Ferro
Faro em Ter
Forma Eter
Rema forte
Far Remote
Fear Morte
Frete o Mar
Meta Ferro
Fora Metre
Fretaremo
Frota em Re
Rato Freme
Frema Reto
Teme Forra
Eta Ferrom
Mare Forte
Rato Refem
Meter Fora
Fora Temer
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Rodrigo Garcia Lopes 9/9/2016

quinta-feira, agosto 10, 2017

O NAVEGANTE (The Seafarer), da trad. de Rodrigo Garcia Lopes





Esta apresentação aconteceu no Instituto Cultural Itaú, em 18 de agosto de 2005, durante o projeto OUTROS BÁRBAROS: POESIA NA IDADE MÍDIA, que reuniu 8 poetas brasileiros (Celso Borges, Frederico Barbosa, Marcelo Montenegro, Rodrigo Garcia Lopes, Artur Gomes, Chacal, Ademir Assunção e Ricardo Aleixo) que viraram referência nesta intersecção de literatura e música no palco. Rodrigo Garcia Lopes (voz e violão), André Vercelino (percuteria) e Marco Scolari (acordeón, violão e teclados).

sábado, julho 08, 2017

Poesia na era da distração





Em livro, Antonio Cicero resgata debate sobre a relevância da poesia

RODRIGO GARCIA LOPES
ESPECIAL PARA A FOLHA

     “A Poesia e a Crítica” reúne 13 ensaios do poeta, letrista e filósofo Antonio Cicero. O primeiro aborda, em tom de testemunho, sua relação problemática com a contracultura e a importância de suas conversas com Caetano Veloso para sua formação intelectual. Sete são dedicados à análise da obra de autores como Hölderlin, Thomas Mann, Fernando Pessoa e os brasileiros Ferreira Gullar (2), Armando Freitas Filho e Drummond. 
   Os ensaios mais interessantes são aqueles que discutem a poesia em nossos dias, o caso da letra de música e a relação da poesia com a filosofia. Há espaço para a complexa questão do cânone poético, espécie de ranking dos melhores poetas de todos os tempos.
     Em “Poesia e Preguiça”, texto que parece dialogar com a teoria do inutensílio, de Paulo Leminski, Cicero situa a poesia em nosso mundo saturado de informações e distrações, onde “tempo livre” virou artigo de luxo. 
    O poeta resgata o sentido positivo e libertário que a palavra “ócio” tinha para os antigos (negócio vem de “nec otium”, ou seja, não-ócio). A poesia nos abre a possibilidade de experimentar um tempo não utilitário, de ir além do uso pragmático da linguagem — o que domina nossas vidas. Paradoxalmente, a mesma “preguiça receptiva” fundamental para a gestação e produção de um poema é fatal para o leitor hiperpassivo. 
     Para Cicero o verdadeiro poema, onde forma e conteúdo estão em perfeita simbiose, mobiliza leitor e autor por inteiro: inteligência, emoção, sensibilidade, memória, cultura, intuição etc. Como argumenta no ensaio seguinte: 
     “Para fruir um poema é preciso nele imergir. E como a imersão não combina com a temporalidade acelerada do presente, muitos afirmam que a poesia simplesmente não tem mais lugar neste mundo. Pois bem, é exatamente por não se ajustar à temporalidade acelerada do presente que a poesia é necessária hoje”.
    “Sobre as letras de canções” revisita a velha polêmica sobre se letra de música é poesia, questão aparentemente resolvida com a canonização de Bob Dylan, Prêmio Nobel de Literatura. Sem deixar de explicar que o poema é uma estrutura autônoma, enquanto a letra é sempre parte de um conjunto maior, Cicero afirma ser mais pertinente perguntar se “a letra de música pode ser um bom poema”. Ele relembra que os poemas líricos da Grécia Antiga e dos trovadores provençais, hoje exemplos canonizados de poesia, eram letras de música. Atualizando e aproximando a discussão para nós, menciona “Letra Só”, que reúne as letras de Caetano, como exemplo de “um grande livro de poemas”.
      O importante é que, com este livro, Antonio Cicero segue uma tradição de poetas-críticos que refletem sobre seu ofício e a relevância da poesia (seu caráter de arte, não de passatempo e entretenimento). Coisa rara hoje em dia, quando o poema costuma aparecer “disfarçado” na forma de prosa empilhada em linhas, numa cena literária onde sobra pose e falta, muitas vezes, poesia.


RODRIGO GARCIA LOPES é poeta e tradutor, autor de “Experiências Extraordinárias” e “O Trovador” (romance policial), entre outros.

A POESIA E A CRÍTICA
AUTOR Antonio Cícero
EDITORA Companhia das Letras
QUANTO R$ 44,90 (236 págs.)
AVALIAÇÃO bom ★★★